Manaus: águas de contrastes

Quando o amazonense diz que o rio é a estrada da floresta, não está brincando. Todos os meios terrestres de transporte têm seu equivalente fluvial navegando pra lá e pra cá na região. Assim, temos balsas, lanchas, ônibus aquáticos, táxis, gaiolas, chatas, rebocadores, empurradores, cargueiros vindos do mundo inteiro esperando sua vez de atracar – cujos contêiners serão depois transportados em carretas pelas rodovias do Brasil afora – o sofisticado cruzeiro Iberostar Grand Amazon apitando ao entardecer, barcas de gado, ferryboats, canoas e uma boa quantidade de etc. Dada a peculiaridade da vida ribeirinha, até mesmo alguns serviços do dia a dia, comuns nas ruas de outras cidades, foram também adaptados para boiar, tipo agências bancárias e hospitais flutuantes.

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Assim, outro passeio tipicamente turístico, nem por isso desinteressante, é o encontro das águas do Rio Negro e do Rio Solimões. Aconteceu de Manaus ser fundada bem de frente para este fenômeno da natureza. Bom para eles, bom para a gente. E o Blogo Repórter embarcou nessa no Amazonas.

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Devido à densidade, pH, temperatura e velocidade das águas do Negro e do Solimões, afluentes do Amazonas, elas correm juntas durante alguma distância sem se misturarem.

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É só andar (navegar) um pouquinho e já começa o show.

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De frente para o crime, com direito a espuminha traçando o “contorno”.

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Ton sur ton.

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Um turista desavisado.

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O monstro do Negro Ness.

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Proibido para menores de idade.

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Uma parada para encher o tanque.

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E, na volta, uma peixaria me chamou a atenção. Além dos tradicionais pirarucus, tambaquis e surubins, havia esta criatura peculiar – o bodó. Bodó é a chamada “lagosta da Amazônia”. Na verdade, é um peixe cascudo com uma carne muito saborosa. Na época do Festival de Parintins, vende mais que cachorro-quente pela cidade. Já tem até festival gastronômico dedicado à iguaria, e, se eu tivesse mais tempo, iria comprar um quilo para assar.

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Quem achar o prato muito exótico pode ficar com uma caldeirada de tambaqui. E na despedida de Manaus, o Encontro das Águas ganha também o Selo de Aprovação do Agora Vai. Tudo em maiúscula: vou oficializar este prêmio…

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Fotos do mosaico no início do post – agoravaimesmo.com, exceto: Iberostar Grand Amazon – divulgação; agência flutuante Caixa – divulgação; hospital fluvial – Roberto Carlos / AGECOM.

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Manaus: Teatro Amazonas

Neste bloco, o Blogo Repórter mostra o básico de Manaus. O centro histórico restaurado da cidade está na praça São Sebastião. Ali temos bares, lojas de artesanato e tudo está muito bem cuidado e policiado (fora dali, valem as regras de segurança de qualquer cidade grande brasileira – seja invisível).

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O maior destaque da área fica por conta do Teatro Amazonas. Inaugurado em 1896 e com capacidade para 701 pessoas, foi a cereja do bolo da vida luxuosa proporcionada pelo ciclo da borracha. A visita guiada acontece de 15 em 15 minutos e custa R$ 10,00. Informações sobre horários de funcionamento no tel. (92) 3232-1768. Veja também o link do governo do Amazonas.

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Na verdade, é uma pena que uma atração destas ainda não tenha o seu próprio site. Acontece…

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O prédio apareceu no filme Fitzcarraldo, de Werner Herzog, onde o personagem principal era um fracassado homem de negócios que pretendia construir uma ópera no meio da floresta amazônica.

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A cúpula é revestida de pastilhas vindas da Alsácia (França), representando a bandeira do Brasil. A decoração do interior da abóbada consiste em telas alegóricas pintadas em Paris. O lustre veio de Veneza, e desce até o chão para facilitar a faxina (e trocar as lâmpadas, também). Tudo do bom e do melhor à época.

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Curiosidade: as cadeiras originais eram de vime. Quando foi introduzido o sistema de refrigeração (amém) no teatro, percebeu-se que elas começaram a ressecar e arrebentar. Foram, então, trocadas pelos atuais assentos de veludo.

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O piso do Salão Nobre é feito de 12 mil tacos de diversos tipos de madeira, trabalhados na Europa e ajeitados sem cola ou pregos. Melhor que o sinteco da sua casa, leitor…

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A decoração interna ficou a cargo do artista pernambucano Crispim do Amaral, exceto o Salão Nobre, decorado pelo italiano Domenico de Angelis.

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Dois templos: no alto, o teto do Salão Nobre; embaixo, o teto da Igreja de São Sebastião, que fica ao lado do Teatro.

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A visita é uma daquelas imperdíveis para quem está em Manaus. O prédio é realmente muito bonito e está em várias listas dos “top beautiful” mundiais.

Infelizmente, pelo fato da cidade ter passado boa parte do século XX em decadência, tendemos a esquecer ou nem saber do período de glória e riqueza vivido no Amazonas. Monumentos como esse ajudam a nos lembrar da história da região, ao vivo e a cores. Aliás, falando em ao vivo, você sabia que Roger Waters – sim, aquele do Pink Floyd – já se apresentou aqui?

Ganhou o selo de aprovação do blog. ;)

No próximo bloco: Águas de contrastes

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Desenferrujando o blog: Manaus

Após a grande revisão dos seis anos / 500.000 km de blog – o que ocorrer primeiro, de acordo com as letrinhas no manual do proprietário – este humilde escriba mais uma vez se flagela e pede perdão aos leitores que restaram pelo intervalo viajandão. Tem alguém aí? Vamos lá.

IMG_7126Eis que fui convocado no trabalho para ir até Manaus a serviço. Interessante: na minha lista de “ticagens” pelo Brasil, só faltava a região Norte. Ticar no sentido de pelo menos dar um pulinho até o lugar para fincar a bandeira, entendem?

Unindo o útil ao agradável, lá fomos nós. Esta é a época de chuvas no Norte – o chamado “inverno” da região. Inversamente, o verão local ocorre no nosso inverno, no meio do ano. Dizem que nesse período, Manaus faz o Rio de Janeiro parecer uma Sibéria. Eu não vi, não sei. Por ter ido agora, a cidade estava mais fresca do que o Rio. Amém.

A serviço, ficamos no Ibis Manaus, que tem como público-alvo o pessoal de negócios – fica ao lado do Distrito Industrial. Não é para turistar, evidentemente. Mas o Blogo Repórter em Manaus conseguiu captar algumas impressões da cidade.

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Como tudo no Brasil, Manaus viveu de fases. No início, ninguém dava nada pela região – aliás, no início da colonização, ninguém dava nada pelo Brasil inteiro – que era posse da Espanha, de acordo com o Tratado de Tordesilhas, e só ao final do século XVI os portugueses começaram a dar um rolê pela área. Na época, Portugal estava unido (ou submetido) à Coroa Espanhola, mas os gajos conseguiram se aproveitar dessa condição, pegando um pouquinho aqui, uma mão boba acolá, vambora e surgem os fortes, arraiás e capitanias. “Manaus” vem do nome da principal tribo indígena que habitava o local, os manáos, que resistiram bravamente aos portugueses e bravamente foram exterminados.

Chega o século XIX e, com ele, o ciclo da borracha. Com o início da exploração do látex oriundo dos seringais da Amazônia, a região encheu-se de grana e viveu seu período áureo. Deu-se a urbanização da cidade com tudo que era mais moderno na época: bondes, luz elétrica, teatros, cassinos, o melhor da moda parisiense etc. Garrafas e mais garrafas de Veuve Clicquot espoucavam na tresloucada noite manauara daqueles tempos.

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Mas alguns empreendedores ingleses (ladrões) a serviço de Sua Majestade conseguiram contrabandear mudas de seringueiras para fora do Brasil e deram início a sua própria produção de borracha na Malásia. Fim de festa e todo mundo foi embora com uma ressaca violenta.

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Igreja de São Sebastião. Deveria ter duas torres, mas a segunda foi cancelada por falta de verba ao fim do ciclo da borracha. Fonte: Wikipedia

Só com a criação da Zona Franca de Manaus no final da década de 60, a situação de decadência se reverteu. Através de imensos incentivos fiscais, grandes indústrias se instalaram na região e o crescimento econômico voltou em grande escala. Veja a embalagem da sua TV LED,  celular, micro, monitor, motocicleta etc, com o guará voando: “Produzido no Pólo Industrial de Manaus”.

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E também havia a Zona de Livre Comércio nas décadas de 70 e 80, onde se podia comprar produtos importados sem impostos (que eram proibidos no resto do Brasil). Havia ruas inteiras de importadoras e, assim como hoje em dia a brasileirada vai para os EUA passar o rodo e o cartão nas lojas, na época faziam-se romarias a Manaus. Era necessário chegar ao aeroporto com três horas de antecedência, mesmo que seu vôo fosse doméstico, de tão grande que era a fila do check-in. Também como hoje, havia cotas. Tinha até gente que pedia para outros passageiros levarem parte de suas compras, para driblar o limite. Temerário. Aposto que muito do branco e do preto rolou por aí, sem que o pobre portador soubesse o que estava levando…

No próximo bloco: o básico de Manaus.

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Paleontologia no táxi

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Após receber o título de Cidadão Honorário do Rio, resolvo voltar à terrinha para um chopp pré-natalino. Desembarco, pego o táxi e o motorista inicia o diálogo:

- Posso lhe fazer uma pergunta sobre assuntos da vida?

- (Lá vem coisa) Sim, diga lá.

- Você está num bar, tomando sua cerveja, e alguém pergunta se você acredita em dinossauros. O que você responde?

- Sim, acredito. As provas estão aí.

- E quais seriam as provas?

- Os fósseis.

- E se disserem que é tudo mentira, que os esqueletos já se decompuseram?

(A essa altura, eu já imaginava que o motorista provavelmente havia discutido com um colega no bar, cada um querendo impor sua razão. Essas discussões científicas são uma merda, eu sei)

- Mas um fóssil não é o esqueleto do animal. O bicho morre, e é soterrado por várias camadas do solo durante milhões de anos. Os ossos se decompõem mesmo, mas o espaço é preenchido por sais minerais. É isso que forma os fósseis.

- Pois é, eu estava conversando com o dono do bar (eu sabia) e ele não acredita, cisma que nada disso existe, que é tudo uma invenção. Eu disse para ele: “rapaz, se for uma invenção, é uma invenção muito bem contada, pois está tudo aí pra gente ver, no mundo inteiro”. Eu vou responder pra ele isso que você me disse.

- É como se fosse um molde.

- !… Isso, muito boa sua resposta. Vou dizer isso pra ele. Tá tudo aí, as pinturas nas cavernas etc.

- Mas tem outra coisa: o homem nunca viu um dinossauro. Eles foram extintos antes do nosso surgimento, há muitos milhões de anos. O que os homens pré-históricos desenharam nas cavernas foram os mamutes, tigres etc., que viveram na época deles.

- Ah, sei.

- E muitos desse animais estão preservados nas geleiras, no Pólo Norte. Aí já não se trata nem de fósseis. Trata-se de cadáveres conservados no frio extremo, igual a um freezer.

- É mesmo, a gente congela a carne num freezer, então em regiões geladas o corpo deve ficar congelado mesmo.

- Isso, vários mamutes já foram encontrados na Sibéria, no Pólo Norte, muito bem conservados, com órgãos, pele e tudo. É que, na época dos dinossauros, a Terra era totalmente tropical, então não restou nenhum corpo. Mas depois o planeta esfriou e tornou-se possível a preservação dos animais em certas regiões.

- Muito boa sua resposta. Eu vou voltar lá e dizer isso pra ele. Ele é gente boa, mas quando cisma com uma coisa, é fogo (por experiência própria, já sei que não vai adiantar nada e o dono do bar não vai se dar por vencido). Isso tem na internet, não tem?

- Tem, fala pra ele procurar no Google.

- É, vou mandar ele procurar “mamute congelado”, alguma coisa assim. Chegamos.

- Quanto foi?

- Quinze reais.

- Bom, já que eu lhe dei argumentos para sua discussão, vou cobrar quinze reais também e fica tudo certo.

*Esse último parágrafo é só brincadeira. Paguei direitinho. E fiquei imaginando o prosseguimento da história, em mais um capítulo da briga Darwinismo X Criacionismo, em algum botequim de Niterói.

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Saindo de Istambul

(Continuando o post anterior)

Do outro lado da praça, temos a Mesquita Azul, cujo nome se deve aos azulejos azuis (dã) do seu revestimento interno. Foi construída no século XVII por ordem do sultão Ahmed I, só de raiva, para fazer frente à Hagia Sofia – que também já havia sido transformada em mesquita, mas todo mundo continuava curtindo e comentando a construção no facebook e o sultão não podia conviver com isso. Inveja do pênis.

 Os seis minaretes da mesquita causaram um disse-me-disse na época. A regra era clara: as mesquitas deveriam ter no máximo quatro minaretes, exceto a mesquita da Caaba, em Meca (aquela do monolito sagrado e da peregrinação muçulmana), que tinha seis. Pegou mal para o sultão e ele resolveu o problema construindo um sétimo minarete na Caaba.

 

Detalhe interessante: o portão de entrada apresenta uma corrente, que obrigava qualquer um que viesse a cavalo a se abaixar, inclusive o sultão e sua comitiva. Assim, estabelecia-se a predominância do poder divino sobre o terreno.

Ali perto, temos as cisternas bizantinas, construídas no século VI. Na verdade, este conjunto é o maior dos inúmeros que foram construídos para evitar que a cidade se tornasse vulnerável à falta de água em caso de guerra. Isto ficou particularmente evidente em um sítio anterior, onde foi destruído o principal aqueduto de Constantinopla.

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As cisternas aparecem numa das cenas finais do filme Trama Internacional (2009), embora com a licença poética de terem sido retratadas numa localização diferente da real. Completa o conjunto o Palácio de Topkapi, aonde…. não fui. Estava cansado e não estava assimilando mais nada. Shame on me.

Um programa que também é muito legal: o Museu de Arte Moderna de Istambul, instalado num antigo armazém do porto, na cidade nova. Eu gosto de arte contemporânea. Viajo bastante, com o perdão do trocadilho. Infelizmente, não se pode fotografar lá dentro, mas o Zeca Camargo conseguiu (última foto do post)…

E quem quiser ver um pouco da Istambul contemporânea, pode pegar o metrô e descer na estação de Levent, onde ficam os modernos prédios de escritórios e shopping centers – inclusive o Kanyon Mall, cujo projeto venceu prêmios arquitetônicos em 2006.

 

Porque se chama “Kanyon”?… 

A essa altura, o leitor que já foi a Istambul está me xingando, e o que ainda não foi arquivou a idéia. Não me levem a mal, Istambul está muito longe de ser “desrecomendável”. Mas para mim não bateu. Não fedeu e nem cheirou; foi neutra. Vão e tirem suas conclusões. Mas eu trocaria duas noites em Istambul por mais duas em Bodrum

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