O bode do “turismo religioso”

Duas coisas me chamaram a atenção nesta viagem pela Turquia: o mosteiro de Mevlana, em Konya, e a suposta casa onde morreu a Virgem Maria, em Éfeso.

Foto: Niels Elgaard Larsen, 2009

O mosteiro de Mevlana é visto em uma parada que ocorre no longo trajeto da Capadócia a Pamukkale. Resumindo, ali se encontra o mausoléu de Mawlana Jalal ad-Din Muhammad Rumi, místico sufi que viveu no séc. XIII e fundou a ordem mevlevi dos dervixes rodopiantes. Ali temos várias relíquias islâmicas, claustros decorados com imagens dos principais dervixes e seus pertences etc. E as tradicionais lojinhas e cafés ao final.

Já a casa da Virgem Maria fica na cidade de Selçuk, próxima às ruínas de Éfeso. Segundo a história, no séc. XIX, uma freira de nome Anne Catherine Emmerich teve uma série de visões que apontavam aquele lugar como a última morada da Virgem. A pequena casa fica no alto de uma colina, tem uma capela e um muro dos pedidos, onde os visitantes deixam seus desejos escritos em papéizinhos. Também tem os bares e lojas de sempre.

Pois bem: me deu um mal-estar tão grande nesses lugares que comecei a refletir. Lugares de fé, de contemplação, tomados por 500 ônibus de milhares de turistas ao mesmo tempo – incluindo eu mesmo – disputando espaço para tirar fotos, andar pra lá e pra cá e depois irem embora. Porra, o mosteiro é o lugar da fé dos caras, onde eles estão sepultados. Muitos dervixes da velha guarda reprovam este “comércio”. Acho que eles têm razão.

Na casa da Virgem, a sensação foi pior, pela simplicidade e “meiguice” do lugar e pelo tamanho reduzido – e, consequentemente, pelo volume massacrante de turistas. E tudo não passa de uma suposição, baseada em visões de uma freira adoentada! Aí pensei:

1- Se a história for falsa, a coisa toda vem abaixo por si só;

2- Se for verdade, pior ainda, pois escrotizaram o lugar. Estou usando termos fortes, mas é isso: profanação.

Aí podemos questionar: mas e o conjunto do Vaticano? E Notre-Dame, e as outras grandes catedrais, templos, mesquitas, sinagogas etc, que existem pelo mundo? Também estão profanados pela horda de turistas?

Alguns são mais radicais e acham que sim. Porém, um lugar como a Basílica de São Pedro já foi pensado e construído para ser algo esplendoroso, feito para grandes concentrações de todas as gentes, para ser a apoteose máxima da instalação física de sua religião.

Agora imaginem a pequena e simpática Igreja de Nossa Senhora das Necessidades, na não menos simpática e bucólica vila de Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis, tomada por hordas imensas de visitantes, todos os dias. Se eu visse isso, iria me jogar da ponte Hercílio Luz. Não tem comparação.

Acho que o turismo religioso deveria seguir a regra das maravilhas naturais: limite diário de visitantes. E taxa de preservação.

Ninguém é inocente. A não ser o par de jarros acima

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2 respostas para O bode do “turismo religioso”

  1. Nívia disse:

    Arthur, em primeiro lugar parabéns pelas lindas fotos! Realmente é bem difícil equacionar o turismo com o acesso a determinados lugares, principalmente quando se tem religião no meio. No caso da Igreja do Bom Jesus da Lapa no oeste da Bahia, construída dentro da rocha e com vãos de impressionante beleza, mas que fica lotada nas procissões, sem nenhum controle de acesso. O problema é como impedir uma manifestação autêntica de fé, como nas procissões, etc? Claro que são situações um pouco diferentes do turismo religioso propriamente dito, de uma viagem apenas para ver e conhecer… De qualquer forma, mesmo para os não-religiosos dá uma certa revolta o descuido com lugares tão lindos!

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